terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Espelho

Vladimir Volegov
   Ali, sentada no jardim, estava uma mulher. Lia um livro qualquer, sem se importar realmente com a história, apenas desfrutando a brisa refrescante e o ar puro. Ela não suportava ficar em ambientes fechados, sentia-se presa. Sabia que um dia teria de abandonar o hábito de vir ao parque todas as tardes para se tornar aquilo que a família esperava dela: a herdeira e sucessora de uma grande empresa. Mas não conseguia se imaginar trancada em um escritório o dia inteiro, sem ver a luz do sol, naquele ar refrigerado e sintético.
   As pessoas passavam com seus cachorrinhos de estimação, falando ao celular e quase não percebiam a mulher com o livro. Apressadas, não tinham tempo para apreciar todos os detalhes como ela apreciava. Conhecia cada parte, sabia o lugar de todos os canteiros e bancos. Seu preferido era o ao lado da fonte. Podia ouvir o som do chafariz e observar as carpas que nadavam no lago artificial.
   Hoje resolveu sentar-se no pequeno muro que circundava o lago. A água estava tranquila, como em uma piscina não frequentada. O chafariz já fora desligado. Se observasse com atenção conseguiria encontrar os peixes se movimentando. Do ponto onde estava, tinha uma visão ampla de todo o parque. Aproximava-se a hora do fechamento, e as pessoas se dirigiam lentamente para a saída.
    Fechou o livro. Já estava no penúltimo capítulo e não se sentia entusiasmada para terminá-lo. Não que fosse ruim, não era, só não estava interessada nesse momento. Olhou para a água tremeluzente. A luz do sol já desvanecia e uma leve penumbra ameaçava se instalar. Podia ver seu reflexo na superfície. Reconhecia seus traços mais marcantes, como os cabelos abundantes e de cor vívida e o nariz afilado. Seus olhos tinham uma aparência atemporal e a boca fina parecia ter uma leve expressão irônica. Mas haviam coisas que não conseguia identificar, como as olheiras profundas e algumas manchas em sua pele originalmente uniforme e macia. Sabia que todos passavam por isso, o lento processo de envelhecimento. Além da parte estética, também havia algo de diferente em sua personalidade, não se sentia mais a mesma pessoa de alguns anos atrás, era como se fosse outra vida.
    Será que dali a vinte anos ainda poderia reconhecer algum traço de hoje? Nesse espelho fraco e um tanto disforme teve uma visão de si mesma mais real do que em qualquer outro. Ela não permitiria que o tempo, as pessoas, ou o qualquer outra coisa mudasse a sua essência e arrancasse sua identidade. Sempre teria onde refugiar seus sentimentos e a sua alma, dentro de si mesma, naquele jardim.

8 comentários:

  1. Belíssimo Blog, Ana,

    Gostei dos textos, da estética, da apresentação. Você tem bastante talento.

    Parabéns, já estou seguindo o seu trabalho.

    Beijos Mágicos

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  2. Simplesmente Lindo *-----*
    Chega uma hora em que temos que abrir mãos de alguma coisa, isso mostra maturidade!

    Amei aqui, estou ti seguindo, e já curti sua page do face^^

    Um Beijo

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  3. Já viu a promoção que ta rolando solta no blog O Leitor?
    Ainda não?
    Então corre, que até o dia 05 de Fevereiro você ainda pode concorrer a um dos 6 livros que estão sendo sorteados.
    Beijos e espero você lá,

    Pamela.

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