domingo, 8 de janeiro de 2012

A janela

    Os dias passam tão rápido... Naquela tarde ensolarada de outubro Daniel olhava o mar pela varanda de seu apartamento. Ali, na lateral do prédio, observou que havia algumas nuvens brancas como algodão no céu e gaivotas cinzas voavam livremente.
    O ano correra fluidamente, de um jeito sorrateiro que mal se notava. Agora, o senhor descansava em uma cadeira confortável, olhando a paisagem. Sua esposa Carmen estava na cozinha, preparando-lhe um café. Desde que acordara, Daniel estava com certa nostalgia, como se algo lhe tivesse abatido. Porém, nada havia ocorrido e ele ficou sem saber o motivo de tal sensação.

    Moravam em um condomínio à beira-mar, no décimo primeiro andar. Em geral, tinham um bom relacionamento com todos os vizinhos, muitas vezes marcando passeios e lanches com eles nas áreas de lazer. O casal que morava no prédio ao lado, no mesmo andar, era o único que não aceitara a aproximação de Daniel e Carmen, tratando-os como se fossem desconhecidos.

    Depois de cinco anos morando lá, desistiram de ter um convívio amigável com eles. Por esse motivo, quando Maurin, a antipática vizinha, apareceu na janela e o cumprimentou, Daniel ficou extremamente chocado. A mulher estava com roupas simplórias, muito diferentes de todo aquele vestuário elegante que tinha por hábito. Sentou-se no parapeito, de costas para o lado de fora, e começou a limpar a vidraça com o borrifador de algum tipo de produto químico e um pequeno rodo.
    Ainda chocado, lembrou-se que a faxineira havia limpado todos os vidros na semana anterior. Enquanto observava a vizinha, Carmen entrou na varanda e avisou que o café estava pronto.  Daniel contou-lhe o que se passara com Maurin, deixando-a surpresa também.
    No momento em que estava indo para a sala de jantar, ouviram um grito. Voltaram para a varanda e viram que a vizinha tinha se desequilibrado e estava prestes a cair. Atônito, Daniel ficou sem saber o que fazer, completamente mudo e com os olhos aflitos. Carmen gritou.
    A sala de estar de Maurin estava escura, e não havia onde colocar os pés para se equilibrar. Não sabia ao certo o que acontecera, estava limpando calmamente o vidro quando sentiu suas pernas tomarem um forte impulso para cima, o que a assustou. O borrifador caiu de suas mãos, junto com o rodo. Tentou segurar-se na beirada da janela, mas não conseguiu.
    No segundo em que a vizinha caiu, Daniel desmaiou.

    Maurin caiu no jardim que havia entre as duas torres. O impacto foi muito forte, causando um barulho ensurdecedor. Não havia ninguém por perto. Ficou em sofrimento por longos e intermináveis minutos, até que um grupo de pessoas começou a se juntar ao redor.
    - O resgate está chegando!
      - Não desista!
    - Como ela caiu?
    Todas essas palavras não faziam sentido, um burburinho de vozes incessável. Pensou no marido que estava assistindo televisão em casa. Será que ele já percebera?

    Daniel acordou alguns segundos depois, minutos depois de ouvir o baque do corpo. Carmen já acionara o resgate. Transtornados, desceram e foram até o lugar em que Maurin caíra. Algumas pessoas estavam lá, impedindo a visão total da cena. Assim que foram se aproximando, viram Alberto, o marido da vítima. Aparentemente calmo, recebeu os paramédicos. As pessoas se afastaram.

    Maurin avistou os paramédicos e seu marido de um lado. Do outro viu o vizinho que cumprimentara algum tempo antes. Tentou sorrir para ele, mas não tinha forças. Perdera tanto tempo com a sua arrogância, sem imaginar o que o futuro lhe reservava. Pelo menos, conseguiu se redimir antes de morrer.

    Daniel olhou para ela. Maurin, com a respiração entrecortada, virou o rosto levemente para a grama e cerrou os olhos verdes em uma expressão de puro desespero.

3 comentários:

  1. Escreve,escreve e nem sente...daria uma boa escritora de romance policial.Parabéns,minha linda,continue assim! Beijos!

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  2. Gostei do seu miniconto (não sei se tem hífen, essa reforma ortográfica só veio para atrapalhar). Você escreve de forma deliciosa, porque tem blogueiros que tem uma escrita pesada e chata. Parabéns Ana Carolina!

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