sábado, 7 de janeiro de 2012

Passageiro do fim do dia

   Apressado, Bruno pegou as chaves de casa e a sacola que continha o presente destinado a Patrícia, sua namorada. Era a véspera do aniversário da moça, e ele mal podia esperar para ver que reação ela teria ao receber a surpresa.
   Uma semana antes, Bruno ainda não sabia o compraria para a namorada. Com certeza deveria ser algo inesquecível, já que estavam juntos há 4 anos e o amor dos dois era cada dia maior. Patrícia, apesar da pequena estatura e delicadeza dos traços, tinha uma presença marcante, despertando olhares e a atenção de todos. Bruno realmente precisava surpreendê-la!
   Tarefa difícil, escolher um presente. A moça já tinha de tudo, conhecia quase o mundo todo e costumava ganhar tudo o que queria, não importava o preço. Bruno morava em um pequeno apartamento no centro da cidade e trabalhava todos os dias. Juntara o dinheiro com sacrifício, agora só faltava tomar uma decisão.
   Vagou pelas ruas de seu bairro, sem saber ao certo onde ir, até que avistou uma placa e um estalo se passou em sua mente: ali estava o presente perfeito. Comprou imediatamente, pedindo para a vendedora fazer um embrulho.

   Hoje, com tudo planejado, Bruno parou em frente ao espelho. Seus olhos azuis brilhavam, como os de uma criança. A barba por fazer contrastava com seus traços simétricos e refinados. Passou algumas gotas de perfume na nuca e deixou o apartamento.
   Na esquina de sua rua havia um ponto de ônibus. Normalmente estava cheio, mas nessa quinta-feira não havia uma pessoa sequer. Mesmo com as cadeiras vazias, Bruno preferiu esperar de pé, ansioso. O sol estava se pondo, criando uma mistura de cores intensas no horizonte. Uma brisa gélida começava a surgir, e ele se arrependeu por não ter pegado um casaco.
   Logo após ter separado o dinheiro para a passagem, seu ônibus chegou. O motorista analisou calmamente a nota de cinco reais, oferecendo-lhe o troco. Ao passar pela catraca, Bruno constatou que havia apenas um lugar vago, no fundo. Ao lado, estava um homem. Aparentava ser jovem, porém grande parte de seus cabelos eram brancos.
    O ônibus deu partida. Incomodado com o silêncio constrangedor entre os dois, Bruno tentou puxar conversa. O homem se manteve sério e mudo.
   Inconformado, Bruno olhou pela janela. Nessa manhã, combinou de passar na casa de Patrícia e levá-la para jantar. Ela morava em uma pequena mansão no subúrbio da cidade. Seus pais não quiseram morar perto do centro, lá havia muito barulho, poluição e movimento. Preferiram um lugar sossegado, uma rua calma e arborizada. A única desvantagem era a distância, mas isso não era problema, já que todos na casa de Patrícia possuíam carro.
   O ônibus fez muitas paradas, atrasando o trajeto habitual. Ele começou a ficar apreensivo, não queria deixar a namorada esperando. O sol já se escondera no horizonte, faltando apenas vinte minutos para o horário marcado. Ainda não estavam nem na metade do caminho!
   Percebeu que o homem ao lado dormira, e pensou em acordá-lo para que não perdesse o ponto. Lembrando-se da tentativa de comunicação desastrosa, desistiu.
   Finalmente, depois de quarenta minutos, chegou ao ponto certo. Bruno se despediu do motorista e desceu. Andou três quadras. Parou em frente a casa de Patrícia.
   A janela do quarto dela estava aberta e uma luz leve saia de lá. O resto da casa permanecia em um silêncio inquieto. Hesitou por alguns minutos, a campainha parecia tão distante... Por fim, reuniu toda sua coragem e apertou o botão.
   Ficou parado, daquele jeito ansioso de quem aguarda um grande momento. Patrícia estava demorando muito... Por volta de dez minutos depois, ela abriu a porta lentamente.
   A sala de estar estava escura. Patrícia estava com os olhos vermelhos e inchados, vestida com uma roupa velha, muito diferente do que ela costumava usar. Não cumprimentou Bruno, não lhe mandou entrar, não fez menção de sair.
   Depois de alguns momentos de silêncio absoluto, ela finalmente sussurrou:
   - Nunca mais fale comigo!
    Bruno, em estado de choque, virou-se e saiu da varanda. Andou de volta ao ponto de ônibus com a sacola do presente, intacta, sentindo-se terrivelmente desolado.

2 comentários:

  1. Eu nem imaginaria o desfecho que essa estória tomaria, parabéns Ana Carolina bem que sua mãe disse que você escreve muito bem.

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