segunda-feira, 2 de julho de 2012

Devaneios

O relógio movia-se vagarosamente. Lá fora brilhavam os raios de sol. Aqui, nesse sofá, brilhavam os olhos de Fernanda. Convencionalmente, quando falamos de um olhar brilhante, fica-se a ideia de alegria, entusiasmo, de uma postura contente diante do momento. Mas para Fernanda, não era nada disso. Em momentos tão tediosos que beiravam a melancolia, os olhos da garota brilhavam ávidos por uma aventura.
                Em seu colo jazia um caderno aberto. As linhas da folha em branco se moviam em uma ilusão de ótica. Com um lápis quase sem ponta, começou a rabiscar. Pouco a pouco, o conjunto de retas tornou-se um cenário para outro mundo: surgiram montes e rios, faunos e ninfas, animais, florestas e vilas. Seres etéreos vagavam por bosques desconhecidos. Totalmente absorta Fernanda esqueceu onde estava, o que estava fazendo e até mesmo quem era. Já não existia alguém com nome tão incomum, na terra onde estava era uma princesa que por muitos anos morara em reinos longínquos.
                Depois de encontrar-se com vários conhecidos e amigos, lembrou-se de onde estava. Era a famosa Suécia, reino fantástico e oculto de estilo medieval. Sua memória anterior, talvez até de outra existência, foi se perdendo. Contudo, já não era mais importante para a vida que teria agora. Quanto tempo se passara? Minutos, horas, ou quem sabe dias. O tempo não era contado com precisão.
                Ali, aventuras eram parte do cotidiano. Sempre se podia escolher qual seria a próxima jornada. Vivia-se como nas histórias, regadas de emoção e acontecimentos. Ela, a garota-princesa, estava se preparando para partir em busca de um tesouro que finalmente possibilitaria a confirmação de seu papel como sucessora do trono, quando sentiu que a Suécia estava desvanecendo. Como quem sai de um transe hipnótico, ouviu sua mãe chamá-la para o lanche.
                O mundo que fora construído mentalmente ruiu-se em questão de segundos. Voltando ao mundo real, levantou-se e dirigiu-se para a mesa da cozinha.

4 comentários:

  1. A vida real, normalmente, nos entristece, se comparado com um belo sonho. kk

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  2. Fiquei com vontade de dizer para a menina não obedecer à mãe neste momento. Assim o sonho continuaria mais um pouquinho. Sonhar é preciso! Embora na vida real ela também seja uma "garota-princesa". Ainda que ela não acredite todo o tempo nisso! =D

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